Saúde
Outubro Rosa e câncer de mama: Como as mulheres lidam com a autoestima
No mês em que é celebrada a conscientização sobre o câncer de mama, é essencial falar a respeito sobre a autoestima em mulheres diagnosticadas com a doença.
Muitas mulheres precisam lidar com problemas de autoestima e segurança durante as fases da doença. (Foto: Shutterstock)

A medicina já evoluiu muito quando o assunto é tratamento do câncer, mas o prognóstico precoce ainda é fundamental para obter maiores chances na cura. 

Procedimentos como a reconstrução mamária, mastectomia e quimioterapia são super invasivos e lidam com aspectos sensíveis à autoestima feminina, já que muitas mulheres enfrentam a queda de todos os pelos do corpo e até a perda dos seios em estágio avançado da doença. 

Ainda assim, algumas mulheres resolveram enfrentar as dores de forma diferente. É o que mostra um especial da revista de tatuagem “Inked”, que reuniu 12 mulheres que passaram pela cirurgia de mastectomia, e resolveram lidar com a ausência das mamas, transformando as cicatrizes em tatuagens cheias de personalidade. O ensaio também se transformou no documentário “Breast Cancer Survivors Show Off Their Ink” ou em tradução livre “Sobreviventes de câncer de mama exibem sua tinta”, produzido pela Inked. 

As fotos foram feitas em outubro de 2017 pela fotógrafa Sophy Holland.

“Meu marido e eu estamos juntos desde a adolescência, então sabia que ele me amava, mas parei de me amar depois da cirurgia. A tatuagem mudou completamente isso para mim”, disse uma das fotografadas pelo projeto Jen Hearn. 

É importante destacar que pacientes em tratamento de imunoterapia e radioterapia não estão liberadas a fazer tatuagem durante o período, pois dentre os efeitos colaterais dos tratamentos estão problemas como alergias e irritabilidade na pele. Pacientes que optam por essa alternativa precisam ter terminado o tratamento por no mínimo 1 ano, e ter a autorização do médico oncologista. Tatuagens que lembram o aspecto do mamilo e da aréola também são solicitadas, pois dependendo do estágio do câncer, é necessário a retirada dos mamilos, por exemplo.

Outra alternativa à mastectomia é a colocação de próteses de silicone a fim de deixar os seios do mesmo tamanho, após a cirurgia que retira parte das mamas. No entanto, nem todas as mulheres estão aptas à reconstrução das mamas. O diagnóstico é feito, sobretudo, avaliando o estágio da doença e seu agravamento. Se não houver contraindicações, a mulher pode fazer a reconstrução das mamas logo após a retirada. 

A Lei 12.802/2013 obriga o Sistema Único de Saúde (SUS) a fazer a cirurgia de reconstrução da mama, logo após o período em que foi retirada. Segundo a legislação, a cirurgia deve ser realizada quando houver condições médicas, e, se não houver, a paciente deve ser encaminhada para o acompanhamento clínico. 

Além da reconstrução da mama, muitas outras iniciativas também buscam ajudar as pacientes a recuperar a autoestima. Em 2011, a Fundação Laço Rosa criou o programa “Banco de Perucas Online”, voltado à doação de perucas para mulheres em tratamento de quimioterapia de todo o Brasil. Para solicitar, basta visitar o site da fundação, na aba Banco de Perucas, e verificar a disponibilidade. Para fazer o pedido, é solicitado laudo médico com nome completo do paciente e indicação da doença. 

As redes sociais também se tornaram uma forma de superar a doença e de alertar para a importância da prevenção. A troca de experiência e de mensagens em grupos no Facebook, por exemplo, tem ajudado pacientes a reagir melhor aos tratamentos e a trabalhar a aceitação do corpo a partir do relato de outras mulheres.  

“A prevenção foi fundamental”

A estudante Fernanda Rodrigues descobriu um câncer de mama aos 36 anos.

Fernanda Alves, administradora do grupo “Conversando sobre câncer de mama” e do canal no YouTube “É só opinião”, em que aborda alguns vídeos sobre o tema, descobriu a doença após fazer o autoexame das mamas. Ela que, atualmente, está com 40 anos, descobriu um carcinoma invasivo aos 36 anos. 

Fernanda conta que durante o banho fez o autoexame e sentiu um nódulo diferente. Desde então, aguardou 15 dias para ter certeza que a alteração não era devido ao período menstrual. Após o período, o nódulo tinha aumentado e foi necessário buscar a opinião de um mastologista. 

“Ele me passou a ultrassonografia das mamas e descobriu que haviam três nódulos que precisavam ser mais investigados. A prevenção foi fundamental porque descobri a doença no início”, disse Fernanda. 

Em seguida, ela optou por retirar o nódulo com a biópsia e fez a mastectomia aos 37 anos. Mesmo com a retirada total da mama direita, ela conseguiu conservar o mamilo. E, após cerca de 2 anos, com liberação do oncologista, conseguiu colocar a prótese de silicone. 

“A gente tem uma crise. Acha que tem que viver tudo de uma vez. Reaprendemos a viver com uma segunda chance, mas ainda permanece a insegurança. Fiquei sem libido durante 1 ano. Nos sentimos muito inseguras”. 

“Fiz a promessa de ajudar outras mulheres”

Vanessa Pessôa tem um grupo que ajuda outras mulheres a passar pelo câncer de mama.

A militar Vanessa Pessôa, de 34 anos, foi diagnosticada com câncer de mama e realizou a cirurgia de mastectomia. Atualmente, ela gerencia um grupo com mais de 8 mil pessoas no Facebook.

hube: Como ficou sua autoestima durante tratamentos como a quimio, por exemplo. O que você fez para contornar o problema?

Vanessa: Eu não passei pela quimioterapia. Eu fui direto para a mastectomia total.

hube: Como foi descobrir a notícia?

Vanessa: Quando eu desconfiei que algo estava errado, procurei ajuda médica. Senti um caroço e fui na mastologista que já me acompanhava antes, pois também é ginecologista.

hube: Você descobriu por meio do autoexame?

Vanessa: Sim.  Ao decorrer de 3 meses, sentia que o caroço estava aumentando e então voltei na médica decidida a pedir uma biópsia.

hube: Com quantos anos descobriu a doença?

Vanessa: Descobri com 30 anos. O tumor era pequeno e tinha cerca de 1cm, mas em 1 mês, ele passou para 8cm e quando fui operar já estava com mais de 10cm. Sendo que descobri no dia 1 agosto de 2016, e operei em 14 de setembro do mesmo ano. 

hube: Você tem histórico de doença na família ou estava entre os fatores de risco?

Vanessa: Não. Eu fui a primeira. Sou professora de educação física e super ativa. 

hube: Você fez cirurgia de reconstrução? Se fez nos conte como foi o procedimento.

Vanessa: Fiz sim. Operei em 3 etapas. Em 2016, fiz a mastectomia com reconstrução imediata colocando prótese de silicone e também parte da musculatura grande dorsal. Em 2017, fiz a simetria do lado esquerdo e o cirurgião esvaziou bastante as glândulas, pois haviam alguns nódulos que não apareceram no exame. Por último, em 2018, fiz a reconstrução do mamilo e aréola dos seios com parte da pele da virilha. Em 2016, fiquei sem o mamilo, após a mastectomia e reconstruí em 2018. Ano que vem farei a micropigmentação para ficar da mesma cor. A pele da virilha é muito próxima a cor do nosso mamilo, mas ainda sim, fica diferente.

hube: Você estava em um relacionamento durante a descoberta e tratamento? Como foi recuperar a autoestima e o desejo nesta fase?

Vanessa: Na época eu era noiva. Hoje sou casada. Meu esposo me acompanha em tudo. Vai em todos os exames. A gente perde um pouco da libido sim. Tive até problemas com a lubrificação natural da vagina durante o período. 

hube: Como foi se olhar no espelho num primeiro momento?

Vanessa: Eu não pude olhar, pois estava toda cheia de curativos. Fui olhar depois de 7 dias. Para quem achava que ia sair sem nada e saiu com tudo, eu fiquei muito feliz. Mas o que importava pra mim era se a mastologista havia retirado o tumor todo e eu só queria estar curada.

hube: Qual o principal objetivo do grupo? Hoje ele já tem mais de 8 mil membros. 

Vanessa: Assim que eu operei, em 2016, quis fazer uma promessa por ter saído bem! E então criei o grupo câncer de mama. Depois que vovó faleceu, eu sigo ainda mais na promessa de ajudar e orientar mulheres. O grupo tem o objetivo de alertar sobre a importância da prevenção do câncer de mama,  tanto em mulheres, quanto em homens, no grupo do Facebook também existem homens com câncer de mama.

hube: Que conselho você daria para mulheres que estão passando pelo mesmo problema?

Nós conhecemos nosso corpo! Procure sim uma segunda opinião se achar necessário. Mas nunca deixem a cabeça e os pensamentos tomarem conta de você para o lado negativo. Pensem positivo que a vida flui positivamente.

Atenção aos sintomas

Quando falamos de prevenção ao câncer de mama, existem dois tipos: a prevenção primária e a secundária. A prevenção primária está relacionada aos controles dos fatores de risco, entre os principais, o excesso de peso corporal, consumo de álcool e a adesão à terapia de reposição hormonal. Já a prevenção secundária tem por objetivo alterar o curso da doença prevenindo sua disseminação por meio de rastreamento e diagnóstico precoce. 

Segundo informações do Ministério da Saúde, alguns sintomas são frequentes entre mulheres com câncer de mama. Entre os principais estão:  

– edema cutâneo (na pele), semelhante à casca de laranja;

– retração cutânea;

– dor;

– inversão do mamilo;

– hiperemia (aumento de volume sanguíneo em determinada parte do corpo);

– descamação ou ulceração do mamilo;

– secreção papilar, especialmente quando é unilateral e espontânea.

Um dos sintomas mais comuns da doença é o surgimento de um nódulo nos seios com aspecto duro e, em geral, indolor. No entanto, algumas mulheres podem não apresentar sintomas em fase inicial da doença e o diagnóstico precoce é essencial para o tratamento.

Hoje, existem inúmeros avanços quando o assunto é tratamento do câncer de mama, entre eles, a quimio oral e a imunoterapia. Segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), Dr. Vilmar Marques de Oliveira, a quimio oral é indicada quando a paciente já passou pela medicação endovenosa. Um dos dos benefícios é que ela possui menos efeitos colaterais. Já a imunoterapia está restrita a alguns pacientes em estágio de câncer de mama avançado ou doença disseminada do tipo triplo negativo (aquele que não expressa receptores hormonais e a oncoproteína HER2). 

Embora tenham surgido com frequência alguns casos de câncer de mama abaixo dos 40 anos, a faixa etária de 40 a 50 anos representa mais de 70% dos novos casos diagnosticados. Por isso, a mamografia principal exame para diagnosticar a doença, ainda, deve ser feita a partir dos 40. Em alguns casos, o médico pode solicitar a biópsia a fim de confirmar a suspeita da doença. 

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