GRAVIDEZ
Cigarro e fertilidade: Uma relação que pode afetar os planos do casal
“O consumo de cigarros pode levar à diminuição da fertilidade natural feminina e à antecipação da menopausa em até 4 anos”, ginecologista esclarece os danos.

O número de óvulos de uma mulher é definido já ao nascimento e diminui progressivamente até se esgotar, por volta dos 50 anos de idade. Embora a velocidade disto seja programada pela natureza, a ciência aponta alguns fatores ambientais e hábitos de vida que podem de acelerar este processo. É o caso do tabagismo.

A literatura científica oferece indícios interessantes de que o consumo de cigarros pode levar à diminuição da fertilidade natural feminina e à antecipação da menopausa em até 4 anos. Ainda, de acordo com a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, é possível que até 13% dos casos de infertilidade estejam associados de alguma forma ao tabagismo.

Embora ainda existam controvérsias, o tabagismo pode estar associado também à piora dos resultados em tratamentos de reprodução assistida. Um importante estudo holandês publicado há pouco mais de uma década já demonstrava taxas de nascimentos estatisticamente menores entre mulheres tabagistas submetidas à fertilização in vitro, independentemente da existência de obstruções das trompas ou problemas masculinos, ou em casais com infertilidade sem causa aparente.

Sobre a fertilidade masculina, tabagismo e consumo de álcool, separadamente ou combinados, já foram associados a efeitos danosos tratando-se de sêmem. Embora ainda não se possa concluir que fumar reduza de fato a fertilidade masculina, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva reconhece a existência de evidências suficientes de que parâmetros seminais e os resultados dos testes de função dos espermatozóides sejam piores em fumantes, com efeitos dose-dependentes.

Os resultados das pesquisas nos últimos anos apontam para um aumento do desgaste dos ovários e alterações hormonais significativas em relação à danos da função reprodutiva feminina. No âmbito da reprodução assistida, um estudo recente elencou o tabagismo feminino como um dos fatores a influenciar negativamente e de forma independente os resultados, com aumento de cerca de 70% das chances de falha total da fertilização in vitro (FIV).

Em um outro estudo interessante, casais em que ao menos um dos parceiros já havia fumado apresentaram risco duas vezes maior de não conseguirem uma gravidez por FIV em relação aos casais que nunca haviam fumado. Com tabagismo por mais de 5 anos, o risco de jamais se atingir a concepção poderia ser até 4 vezes maior.

Por fim, o tabagismo também está associado a um aumento do risco de perda gestacional espontânea e gravidez ectópica (gestação que se desenvolve fora do útero), tanto em gestações espontâneas quanto nas resultantes de tecnologias reprodutivas.

Ainda que não se caracterizem evidências científicas, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva entende que a literatura acumulada até hoje suporta o valor da abordagem preventiva para a infertilidade, a desencorajar o tabagismo ou a exposição ao fumo do tabaco, para homens e mulheres. Embora a ciência ainda caminhe para conclusões definitivas, pessoas inférteis devem ser fortemente encorajadas ao abandono do tabagismo antes de iniciarem ciclos de fertilização in vitro.

 

Especialista em Fertilidade, Reprodução e Saúde da Mulher. Membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) e da International Society for Fertility Preservation (ISFP).