Saúde
Por que o sarampo voltou a se espalhar pelo Brasil
O surto de sarampo vem preocupando governantes e população.
Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil

De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, foram confirmados 6.640 casos de sarampo, destes 5.652 (85,1%) foram confirmados por critério laboratorial e 988 (14,9%) por critério clínico epidemiológico. 

No mais recente boletim divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, publicado em 16 de outubro, haviam sido confirmados 8.619 casos de sarampo e 17.823 estão em investigação. Entre os casos confirmados, houve 15,3% de internações em menores de 1 ano. A Secretaria também já registrou a ocorrência de 12 óbitos, a maior parte na grande São Paulo.

É importante destacar que no Ministério da Saúde os dados são contabilizados a partir dos últimos 90 dias. Já a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo contabilizou os dados a partir do primeiro domingo de 2018. 

No primeiro semestre de 2019, os casos de relato da doença no mundo são os mais altos desde 2006. Em comparação o mesmo período do ano passado, o número triplicou. Mas o que pode ter provocado este aumento repentino? 

Há 33 anos, o Brasil vivia uma das suas piores epidemias de sarampo. De acordo com o informe epidemiológico do Sus, em 1986, foram notificados 129.942 casos da doença, o que representou uma incidência de 97,7 por 100.000 habitantes. Mesmo após anos de erradicação, ela voltou a se expandir, não só no Brasil, como globalmente. 

O sarampo é uma doença infecciosa causada pelo vírus com genoma RNA (paramyxovirus do grupo morbillivirus). Sua contaminação acontece via tosse, fala, espirro e até pela  respiração. Os sintomas mais frequentes da doença podem surgir entre três e cinco dias, se manifestando, principalmente, por febre acompanhada de tosse, irritação nos olhos, nariz escorrendo ou entupido e mal estar intenso. Além disso, outros sintomas são muito frequentes, entre eles, manchas vermelhas no rosto e atrás das orelhas, que podem se espalhar pelo corpo. 

Prevenção

Diferente do que muitas pessoas pensam, o sarampo é uma doença que atinge também adultos. Sua principal forma de imunização ainda é por meio da vacina tríplice viral. Este mês, o governo deu início à Campanha Nacional de Vacinação Contra o Sarampo. Na primeira fase, o foco são crianças entre 6 meses e 4 anos de idade. A campanha permanece até o próximo dia 25 de outubro. Já na segunda etapa podem se vacinar adultos com idades, entre 20 e 29 anos, de 18 a 30 de novembro. 

Adultos devem se vacinar?

Pessoas com até 29 anos que tomaram apenas uma dose da vacina devem tomar a segunda dose. No entanto, aqueles que têm as duas doses, não precisam se vacinar novamente. Se você não tomou, perdeu o cartão de vacinação ou não se lembra, é necessário buscar um posto médico para se vacinar contra a doença. Já aqueles que têm entre 30 a 49 anos, é necessária apenas uma dose. 

O Ministério da Saúde adverte que mulheres grávidas não podem ser imunizadas porque  a vacina contém os vírus do sarampo vivo e mesmo atenuado, durante a gestação, as mulheres ficam com o sistema imunológico mais vulnerável à doenças e infecções. 

Tratamento

O tratamento é feito para amenizar os sintomas da doença, que se assemelha ao de uma gripe, por exemplo. Por isso, recomenda-se a ingestão de líquidos a fim de evitar a desidratação, além de muito repouso. 

Em que casos o sarampo pode matar?

O sarampo é uma doença infecciosa que pode levar à morte crianças e adultos. As sequelas podem ser permanentes e provocar diminuição da capacidade mental, surdez, cegueira e retardo do crescimento. Em geral, os casos de morte acontecem devido à problemas no trato respiratório ou encefalite inflamação do cérebro, frequentemente ocasionada por meio de uma infecção. Os sintomas mais comuns de encefalite são: dores de cabeça, febre, confusão, pescoço rígido e vómitos. É essencial buscar a confirmação médica, em qualquer suspeita da doença, para o diagnóstico e tratamento corretos. 

Situação epidemiológica no Brasil 

Para entender a volta de uma doença já erradicada no país, é necessário voltar ao passado e analisar os problemas já enfrentados, e possíveis motivos para o aumento repentino dos surtos. 

De acordo com informações da Organização Mundial de Saúde (OMS), os maiores surtos da doença ocorrem em países com baixa cobertura vacinal, seja devido à problemas atuais ou do passado. O que deixou um grande número de pessoas vulneráveis à doença. Ainda assim, surtos continuam surgindo em países com altas taxas de vacinação nacional resultantes de desigualdades na cobertura de vacinas, além das disparidades sociais, entre comunidades, áreas geográficas e entre grupos etários. 

A ONU aponta, por exemplo, problemas como a falta de acesso a serviços de saúde ou vacinação de qualidade, conflito e deslocamento, desinformação sobre vacinas ou baixa conscientização sobre a necessidade de vacinar. Em vários países, o sarampo está se espalhando entre crianças mais velhas, jovens e adultos que perderam a vacinação no passado.

Mas o que isso pode estar relacionados com os casos do Brasil? Basta apontar alguns dados na história epidemiológica do país. Com epidemias frequentes da doença, a cada 2 ou 3 anos, o Brasil implementou na sua política de saúde, em 1992, o Plano Nacional de Eliminação do Sarampo. No mesmo ano, o país deu início à Campanha Nacional de Vacinação e atingiu uma cobertura de 96% da população. O impacto da ação foi imediato, mas ao longo do tempo notaram-se lacunas. 

Em 1992, existiu um déficit na cobertura satisfatória da vacinação de rotina que não foi cumprida de forma homogênea. No ano de 1995, entre os principais problemas relatados estavam as dificuldades no fornecimento da vacina, entraves no processo de licitação e atrasos na distribuição

Número de casos aumentou no Brasil 

A partir dos anos 2000, entre 2013 e 2015, ocorreram novos surtos da doença no Brasil, decorrentes da contaminação de pessoas vindas de outros países. No período, foram registrados 1.310 casos da doença. O maior número de casos foi registrado nos estados de Pernambuco e Ceará. Em 2017, novos casos de sarampo foram registrados por meio de venezuelanos no estado de Roraima, o que rapidamente se espalhou para Manaus, segundo informações do Ministério da Saúde

Em 2018, o Brasil assistiu à volta do sarampo em vários estados do território nacional. Na sua caracterização viral foi identificado o genótipo D8, idêntico ao que está circulando na Venezuela, exceto em dois casos: um caso do Rio Grande do Sul de uma pessoa que viajou para a Europa e importou o genótipo do tipo B3, e outro caso de São Paulo com genótipo D8, com histórico de viagem ao Líbano, sem relação com os casos diagnosticados na Venezuela e no Brasil. 

A Secretaria Estadual de Saúde do Pará (SES/PA) também constatou três casos da doença em crianças menores de 10 anos de idade, em março de 2019. No período de 06 de fevereiro de 2018 a 21 de janeiro de 2019, foram notificados 11.423 casos no estado do Amazonas e, destes, 9.808 (85,8 %) foram confirmados, 1.609 (14,1%) descartados e 6 (0,1%) permanecem em investigação. Até o momento, todos os casos confirmados em brasileiros são do genótipo identificado como D8, já identificado em circulação em Roraima e na Venezuela.

São Paulo é outro estado que preocupa autoridades devido ao alto índice de contaminações. As vítimas não tinham histórico de vacinação. 

Medidas de contingenciamento 

Este ano, crianças menores de 1 ano de todo o país devem ser vacinadas contra o sarampo.  O governo enviou 1,6 milhão de doses a mais para os estados a fim de intensificar a vacinação no público-alvo da doença, considerados os mais expostos a casos graves e óbitos.

“O Ministério da Saúde está fazendo uma medida preventiva. Nós estamos preocupados com essa faixa etária porque em surtos anteriores foram as crianças menores de um ano que evoluíram para casos mais graves e óbitos. Por isso, é preciso que todas as crianças na faixa prioritária sejam imunizadas contra o vírus do sarampo, considerando a possibilidade de trânsito de pessoas doentes para regiões afetadas e não afetadas ”, esclareceu o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira.

Além disso, outras medidas têm sido realizadas. O Ministério da Saúde em conjunto com a Secretaria de Vigilância de Saúde orientou os municípios e estados a realizarem o bloqueio vacinal que visa evitar a propagação do sarampo, quando é identificado algum caso. Ou seja, todas as pessoas que não foram vacinadas e entrarem em contato com pessoas com sarampo devem ser vacinadas em até 72 horas. 

Outra medida é de caráter preventivo. Como existe a iminência da entrada de novos casos da doença no país, o Ministério da Saúde orienta para que todos os profissionais de saúde das redes públicas e privada estejam vacinados, além do remanejamento de gestantes que prestam assistência diretamente aos casos suspeitos e que não têm comprovação prévia de vacinação.

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